Nós, mulheres
Quanto mais mulheres escrevem, melhor o mundo se torna
Quatro dias em Paraty. Vivi e respirei a FLIP de quarta a domingo. Foi intenso. Sabe quando você quer estar em todos os lugares, sofre por não ser duas, três ao mesmo tempo? Mas se sente também privilegiada. Porque eu sei que estar na FLIP, em Paraty, é privilégio. A cidade é longe. Só se chega de carro ou ônibus. A hospedagem custa um rim (ou dois), como diria uma amiga. Comida, bebida, tudo é pago a preço de ouro. No entanto, para quem ama os livros, as palavras, a escrita, estar na FLIP é um sonho. O centro histórico onde os debates acontecem é lindo. Ruas de pedras, casas centenárias e bem conservadas. Às vezes parece até cenário de novela. Gente, muita gente por todo lado. Há vários debates acontecendo ao mesmo tempo. Tudo em ambiente acolhedor. Você, algumas poucas pessoas e o seu escritor preferido falando.
De uma forma bem romântica e resumida, a FLIP é isso. A parte desagradável é que, para entrar neste ambiente acolhedor, numa pequena sala, de frente para aquele escritor, você enfrenta uma fila cansativa sem saber se haverá uma cadeira para ocupar — quando o lugar lota, fica-se para fora. Dependendo da fama do escritor, podem ser mais de duas horas de espera, em pé, debaixo de sol. E, a cada ano, as filas estão mais longas e demoradas. É chato? Demais. Mas, em pé com meu livro, numa dessas filas, olhei para os lados e vi apenas mulheres. Nas filas, nos restaurantes, cafés, caminhando pelas ruas, com um livro na mão para conseguir um autógrafo de um escritor: centenas de mulheres. Posso dizer, com bastante certeza, que o público da FLIP é predominantemente feminino. E isso me faz feliz.
O título desta newsletter é o mesmo de uma obra da escritora Rosa Montero: Nós, mulheres. Nela, a autora traz diversas escritoras e pensadoras, ao longo da história, que foram importantes para que eu e você possamos estar agora conversando livremente sobre escrita. Em um passado não tão antigo assim, os homens eram maioria nas prateleiras. Eram eles que puxavam a fila do que era abordado ou discutido na escrita. Nas salas de debates, ao lado de tantas mulheres, pensei que a escritora Virginia Woolf, por exemplo, iria se emocionar. Ela, que tanto defendeu a presença das mulheres na literatura.
Foi bonito ouvir escritoras associando o processo de escrita muito mais ao sentir do que à técnica. Muito se falou, em diversas discussões, sobre a autoficção e o mergulho interno necessário para criar. A poeta Dalila Teles, em uma conversa sobre “Como escrever versos em tempos difíceis”, falou: “Eu acho que a poesia me faz pensar. Ao pensar em fazer um poema, preciso me refugiar nessa ideia e é um desassossego”.
Quando as mulheres ocupam mais espaço na literatura, os sentimentos também ganham protagonismo. E isso tem consequências não apenas na literatura, mas na maneira como escrevemos ou nos comunicamos. A escritora de Os Imortais, Paulliny Tort, afirmou: “A forma como escrevo ficção não é muito técnica. Tem uma pesquisa muito interna, pra mim”. A percepção daquilo que nos torna únicos, ou de como o mundo e os acontecimentos nos tocam, está ganhando espaço. Ouvi algumas pessoas dizendo que isso pode ter a ver com o crescimento da inteligência artificial. O efeito colateral de ela deixar os textos parecidos é trazer à tona a nossa sensibilidade e as nossas experiências pessoais, que são únicas. O escritor Andrea Bajani, autor de O aniversário, acredita que a ficção também carrega uma parte de quem a escreve: suas experiências, seu jeito de ser e estar no mundo.
Ver tantas mulheres nas ruas de Paraty tem relação com o espaço que conquistamos — ou que estamos conquistando — ao trazer os sentimentos, a sensibilidade e a intuição para o centro. E isso é bem mais poderoso do que supomos.
PS: Essa newsletter foi escrita ontem, domingo, porque sei que você espera recebê-la nas segundas. Mas preciso confessar que estava muito, muito cansada.
Novidades e partilhas
Vem aprender comigo
Dia 10 de agosto começa meu curso mais longo sobre escrita criativa e afetuosa, A Jornada. São oito encontros, das 19h30 às 21h30. Ao vivo e online. Uma maneira de você aprender a escrever com mais maturidade ou até perder o medo de colocar suas ideias no mundo. Com muito aprendizado e prática. E meu acompanhamento bem próximo. Tenho dado poucos cursos, então, se você quer aprender comigo, não deixe a oportunidade passar. Todas as aulas são gravadas e disponibilizadas aos inscritos. Se tiver alguma dúvida, me escreva.
Foto: Joel Muniz/Unsplash


As mulheres são maioria na FLIP e nesse meio da literatura no geral, sem dúvida nenhuma. Aqui em Lisboa vejo a mesma coisa em oficinas de escrita, feiras e clubes do livro. Estamos dominando! kkk
Pouco a pouco ganhamos nosso espaço